Gosto de estar aqui sozinha. De não ter de partilhar isto, em tempo real, com ninguém. De fazer a minha vida ao meu ritmo. De me apaixonar pela cidade sem ter de esconder suspiros ou olhares mais demorados ou fotografias de pormenores insignificantes.
Gosto de sair de casa bem cedo, passear, e voltar ao meu espaço vazio e silencioso. Pôr Coldplay ou Mumford & Sons a tocar e recostar-me no sofá, aproveitar a vista de uma das cinco janelas para o pôr-do-sol atrás da Catedral.
Gosto de andar pelas ruas e ver mais bicicletas do que carros. De ter um mundo completamente plano à minha frente. Dos minutos solarengos de cada dia, que tento aproveitar ao máximo. Gosto das manhãs de fim-de-semana na Meir, a avenida principal ladeada por lojas, e de ver pequenos mercados por todo o lado, e uma enchente sem fim de pessoas completamente diferentes entre si.
Gosto da sensação de recomeço que ter vindo sem companhia me dá. De ser nova com as novas pessoas que conheço. Gosto de falar o dia inteiro em inglês e a certa altura já me ser difícil voltar ao português, mas ainda assim ter vontade de abraçar a portuguesa que por vezes aparece e que, feliz, também se delicia a trocar algumas palavras na nossa língua. Gosto de, por vezes, me esquecer onde estou e começar a falar português com pessoas que nunca o perceberiam.
Gosto, muito mesmo, de olhar em volta e ver dezenas, centenas, de jovens a tentar expressar-se. À procura de palavras que não têm a jeito, mas que vão ter de passar a ter, porque agora temos uma nova vida perto de pessoas de outros países. Gosto de ver peles de cores diferentes, pronúncias diferentes, no mesmo espaço. A rir à volta da mesma mesa. A descansar nos mesmos bares. A partilhar transportes de cidade em cidade.
Gosto de pensar que fui corajosa o suficiente para vir, mesmo com tudo contra. Que decidi sair do país sem o comforto de uma colega por perto, sem apoio da família, sem casa no destino.
E gosto, mais ainda, de agora ter cá pessoas que gostam de mim. De a minha família já aceitar a minha escolha. De ter, apenas para mim, a minha casa. E, mais do que de ter a minha casa, de me sentir em casa.
Partilhas a casa com pessoas em tempo não real, é?
ResponderEliminarOh, não é a casa, era porque partilho o que vivo cá (as in, as minhas experiências) mas apenas ao contar x) Não tenho de vivê-las com ninguém.
ResponderEliminarOh, e eu gosto tanto deste texto. Gosto tanto de saber que estás bem e que está tudo a correr dentro dos conformes :)*
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