Tê-lo como vizinho é maravilhoso, mas também tem os seus contras - sei sempre o que ele está a fazer.
Já por várias vezes, desde que me mudei, ouvi gente em casa dele. Ora amigos, ora amiga. E ontem foi uma dessas tardes. Cheguei a casa e lá estava ela. A rir-se, por detrás da porta dele. A rir-se com ele. Uma mulher com quem já esteve e que agora é apenas uma amiga, mas que está apaixonada por ele.
Subi e tentei abstrair-me, tal como nas outras vezes, mas quebrei. Não estou nos meus dias e foi apenas a gota de água. Mandei-lhe uma mensagem, sabendo que a leria logo, a dizer apenas "you were right, hearing her there with you makes me crazy". Mas precisei de sair. Afastar-me. E assim foi, com Coldplay a tocar bem alto, mais alto do que as vozes na minha cabeça. A bloquear os pensamentos. E andei, andei, andei. Andei completamente sem destino, sem me preocupar com as ruas, com as voltas, com o facto de me poder perder. Andei sem pensar nas dores nos pés ou no frio. Apenas andei.
E depois ele ligou-me. Uma, outra, outra vez. Como ele faz sempre que não atendo, por medo de que eu esteja chateada e a não atender propositadamente. Fez-me voltar até casa e decidiu, assim que me viu, que me queria levar a Ghent, a cerca de 60km. E eu aceitei, ainda em silêncio, ainda com dificuldade em olhá-lo nos olhos.
Quis a sorte ou o destino que a viagem fosse feita durante o pôr-do-sol. Por coincidência, também ele adora conduzir a essa hora, sempre com música bem alta, e deixar-se mergulhar naquele momento. E fomos, 45 minutos quase sempre em silêncio, a olhar para o céu, a absorver a música (Don't Speak, With Or Without You, Wonderwall, Holiday...), a sentir no corpo os 180km/h. A olhar em frente mas, ainda assim, a deixar por vezes a mão deslizar para a mão do outro.
E conheci, assim, talvez como forma de compensação pela tristeza, uma cidade lindíssima e romântica. Um passeio pelos canais, ainda mais bonitos com a iluminação, um chá tomado na esplanada, uma conversa sobre o que se tinha passado. Primeiro dolorosa, porque isto não devia estar a acontecer, depois feliz, porque admitiu que neste momento sou eu a "the one". É comigo que partilha os dias, e é assim que quer continuar. E eu também.
Through the storm we reach the shore, you gave it all but I want more. And I'm waiting for you...
I can't live with or without you.
- but I prefer the with.