Quem me conhece sabe que eu já fui muito pessimista. Durante a maior parte dos anos que já vivi, que foram poucos mas que já me valem algum conhecimento (nomeadamente, o de saber que sei pouco, muito pouco), fui uma pessoa negativa. Alimentava-me da depressão que sentia. Arranjava conflitos, interiores e exteriores, extravasava uma qualquer aura de que as pessoas gostavam mas de que, eu mesma, não era capaz de gostar.
Eram os dias maus que me faziam escrever. Na verdade, foi até assim que comecei a fazê-lo. Escrevia para descomprimir e porque, tal como ainda hoje se diz que é da tragédia que nasce a arte, só conseguia escrever alguma coisa quando me sentia mal.
Há uns anos, e antes daquele ponto de viragem em que, não só pela idade mas também, me tornei uma pessoa mais leve, relaxada e optimista, escrevi um texto chamado "Há dias assim". Hei-de o deixar aqui, mas não hoje, porque hoje não é um dia "assim" como eu o escrevi. Hoje é um dia de outro tipo.
E, pela pessoa que sou agora, é sobre esse outro dia que quero escrever.
Porque há dias em que parece que os astros se alinham. Sair de um duche morno e pôr um bom perfume, ainda que se vá dormir, parece bastar para nos sentirmos no auge de nós. Vestir uns calções e um top largos, macios, apanhar o cabelo de forma despreocupada, pôr uma música tonta e alegre de fundo e dançar, de cortinas abertas e sem medo de sermos vistos, enquanto cozinhamos massas ou vegetais num tacho grande, para depois nos deitarmos no sofá a ver episódios e episódios de uma qualquer série enquanto comemos diretamente da panela.
Há dias em que o conforto de um edredon nos faz pensar no que queremos que a nossa vida se torne - em ter um apartamento bonito, com mobília branca e cestos de verga, em que o quarto só tem um colchão, pousado no chão, e os cobertores, desarrumados, nos dão a ideia de uma vida despreocupada.
Há dias em que basta uma conversa, um copo de vinho, um chá preto com leite servido naquela caneca que, por qualquer razão, nos provoca sorrisos e uma sensação de que o dia valeu a pena.
Em que não precisamos de nada especial, basta um passeio, sentir o calor na pele, molhar os pés no mar ao fim do dia. Basta o que bastar, por mais pequeno que seja.
Há dias, desses dias felizes, que não conseguimos sequer explicar porque assim o foram.
Esses, esses são os melhores. E os que valem a pena recordar.
Há dias como o de hoje.
Esses são realmente os melhores dias. E se pensarmos bem. Todos os dias têm uma dessas pequenas coisas felizes, nós é que por vezes desprezamos essas pequenas coisas.
ResponderEliminarNem mais :) O mais importante é estarmos atentas a esses pormenores, para que os possamos aproveitar!
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