Quando penso em ter filhos (e confesso já aqui, bem à partida, que é algo que acontece com muita frequência e maior ainda intensidade), penso na Maria Leonor. Podia imaginar qualquer bebé, dar-lhe todos os nomes atípicos que me passam, muitas vezes, pela cabeça, mas imagino-a a ela, uma pequenina de olhos castanhos amendoados, talvez cinzentos-esverdeados se, porventura, lhe saísse o totoloto genético e sempre, sempre chamada Maria Leonor.
Isto para dizer que a ideia está bem formada na minha cabeça, não é só um desejo longínquo, não é, para mim, algo apenas conceptual. Sei o que há de bom e o que virá de não tão bom assim. Mas não é nos choros ininterruptos que penso, nem nas pilhas intermináveis de fraldas, nem em tudo de que, ter um filho, me "privaria" - algo em que, ainda hoje, não acredito que me possa acontecer, porque não vejo as mudanças - essas sim, inevitáveis -, como privações ou como um downgrade da vida que levo.
Penso muito em mim, quando penso nos filhos que terei. Penso em muitos lugares-comuns - nos
tempos em que era seguro brincar na rua, nos "cozinhados" feitos de tudo o que encontrasse, nas brincadeiras na praia, com os meus pais, nos bolos que adorava e que gostaria de, um dia, dar-lhes a provar, até mesmo no primeiro dia de escola e na fotografia da praxe tirada, envergando o bibe ou a mochila, à porta de casa - mas penso, mais ainda, nas vezes em que me senti especial. Nas coisas que, ainda que nem sempre boas, ainda hoje penso com ternura.
Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que o meu pai correu atrás de
mim, empurrando o acento da bicicleta e, bem mais nervoso do que eu, que não fazia ideia do
que estava prestes a acontecer, o largou - e lembro-me de como foi olhar para trás e
sentir que sim!, finalmente estava a andar sozinha. E penso muito na bicicleta que, um dia, empurrarei, alegre, para que também ganhem o gosto a esses passeios, ao mesmo tempo em que aprendem que cair dói muito mas que, depois de algumas quedas, o equilíbrio será melhor do que nunca. Quando penso em ter filhos, penso em joelhos esfolados e penso em replicar os sóis desenhados a Betadine que a Paula, a minha Educadora, me fazia sempre, porque um coração apaziguado por sorrisos cura melhor as feridas.
Quando tiver filhos, quero levá-los a pisar uvas, algo que ainda tenho tão presente em mim e que, talvez por saber que, em tempos, foi proibido às mulheres, me deixa mais orgulhosa por tê-lo feito. No meio das árvores de fruto, do cheiro amadeirado da dorna, sentiriam também essa força em si, qual pequeno primeiro passo feminista ainda antes de saber o seu significado.
Penso nas viagens que fiz, ainda pequena. Em Aveiro, terra da minha avó, e no cheiro da ria, que tanto adorava olhar, com todos os seus barcos coloridos. Em Paris, a primeira viagem que fiz de avião, por volta dos 5 ou 6 anos, e sobre a qual ainda hoje me gabam a forma estoica com que me aguentei enérgica e de olhos abertos desde a madrugada até ao final do dia, apenas para poder aproveitar a Disney de alma bem desperta.
Lembro-me muito, quando penso em tudo isto, de todas as histórias com que me fui cruzando - o meu pai contava-me, religiosamente, pelo menos uma história por dia sobre as aventuras do Zé Barnabé, improvisadas no momento e que eu, por mais que me esforçasse, nunca teria capacidade para inventar com tanto jeito quanto o dele; a minha mãe, talvez também um pouco no seu papel de professora, lia muito comigo, e aprendi a ler e escrever por volta dos 4 anos - sei hoje, ainda, quando se deram esses cliques, porque vejo à frente dos meus olhos a escadaria do prédio onde estava sentada quando aprendi a juntar as sílabas, ou o quadro magnético em que ia juntando as letras, porque era o melhor que podiam usar para me entreterem de forma a que comesse.
Quando penso em ter filhos, penso em muito do que vivi, mas também em tudo o que me passou ao lado e gostaria de lhes dar. E penso, ainda que muito na Maria Leonor, também nos outros dois ou três que, por vontade minha, se seguirão, porque não concebo uma casa sem irmãos, para que cresçam juntos, tal como eu tive. Porque posso ser completamente louca por imaginar tudo isto sem dar muita importância à reviravolta que as crianças trazem à vida de qualquer um, mas serei, sem quaisquer dúvidas, uma louca muito feliz no meu mundo de pernas para o ar.