quarta-feira, 15 de maio de 2013

Os Sucessos.

Não sei ao certo quando me atingiu, mas foi há cerca de 5 ou 6 anos que percebi que, por mais interesses que pudesse ter, nunca poderia vir a ter uma profissão que não a de Terapeuta da Fala.
Já por muitas vezes aqui falei dessa paixão, desse mundo enorme e em que vejo um potencial sem fim, mas agora, em estágio, depois de noitadas quase sem dormir e com o tempo limitadíssimo para refeições, sem uns minutos sequer para um café com amigos, descobri mais uma coisa - aquela que me tirou quaisquer dúvidas surgidas em desespero na forma de um "eu gosto tanto disto, será que sou capaz?".
Hoje, depois de quase 3 meses em luta com a exigência do estágio e com a minha dificuldade em adaptar-me ao ritmo de trabalho, as duas sessões por que fui responsável não podiam ter corrido melhor.
Ao fim de muito trabalho com os dois meninos, de muitas actividades em que desmotivaram por terem dificuldades, de muita negociação para conseguir trabalhar um pouco com eles a cada sessão, hoje ambos apresentaram 100% de sucesso em todos os objectivos que delineei. 100%. Quando há pouco, há uma ou duas sessões, tinham dificuldades incríveis. Do insucesso nasceu o sucesso.
Saí daquela escola com o maior sorriso com que me lembro de terminar um dia de tanto trabalho.
Hoje, naqueles momentos, não me importei minimamente com o tempo que demorei a preparar as sessões (delinear objectivos - definir critérios de sucesso - escolher imagens - editar imagens - editar os cartões - plastificar tudo), mesmo que só tenham utilizado o material por 10 ou 15 minutos. Não interessa, é completamente irrelevante o trabalho que tive para cada 45 minutos que passei com as três crianças que acompanho. Como se disse no Congresso de Terapeutas da Fala, "competência e não conveniência". O trabalho não teve nada de conveniente para mim, mas faz parte fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para reabilitar.
No fim do dia, depois de todo o meu trabalho e esforço, depois das horas e horas de planificações e de pouco sono, aqueles meninos não venceram a guerra; mas eu, eu mesma, ajudei-os a ganhar uma batalha e a subir mais um patamar. A atingir 100% de sucesso numa tarefa, a terminar com um sorriso gigante e com um "isto é tão fixe, foi tão fácil!".
E toda a vontade que tive no mundo foi de abraçar os meus dois gémeos, depois da salva de palmas que lhes dei, e de lhes dizer "não era fácil, meu querido - tu é que já aprendeste a fazer isto tudo".

Como mais colegas dizem, ser Terapeuta da Fala é isso mesmo - esquecer tudo o que custou porque a menina foi capaz de articular os /k/; porque o menino com uma Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem foi capaz de fazer uma frase SVO sem omitir constituintes; porque, no meu caso, os meus três meninos com défice cognitivo mostraram um progresso tremendo.
A cada pequeno passo deles, mais sinto que é isto.
É isto que é ter perfil para ser Terapeuta da Fala. 
Porque ainda não o sou. Mas nunca, nunca poderia ser algo diferente.

Sem comentários:

Enviar um comentário