sexta-feira, 12 de julho de 2013

Hoje não é um desses dias, mas...

Conforme prometido, fica a primeira parte do "Há dias assim", que escrevi há uns anos. É um daqueles textos que, por mais tempo que passe, volto sempre a reler quando tenho um dia mau.


Há dias assim.
Acordamos do lado errado da vida, claramente na escuridão, ainda que a luz não hesite em entrar pela janela. Queremos logo que chegue a noite, para podermos dormir e não termos de pensar, conscientemente, em nada. Preferimos arrastar-nos pelos dias ainda que, quase sempre, essa seja uma das coisas que mais detestamos.
Há dias em que parecemos não conseguir soldar as dívidas que o coração acumulou. Em que não conseguimos retribuir nem os míseros favores que a vida nos foi fazendo, ao longo do tempo.
Dias em que a chuva parece cair apenas sobre nós, enquanto que o sol envolve os outros e brilha mais do que alguma vez o fez, mas essa chuva não nos sabe bem, como nas vezes em que saímos à rua apenas pelo refresco matinal que nos desperta e apaga em nós as memórias de uma noite mal passada. Há dias em que a chuva se torna numa tremenda tempestade, em que nem os trovões nos fascinam, quando cruzam o céu púrpura da noite.
Há dias em que o passado nos assombra o espírito. Em que todas as discussões parecem outra vez tão próximas como no momento em que aconteceram, em que os antigos amores voltam e pedem uma segunda oportunidade, sem percebermos porquê.
Não conseguimos pensar sequer no que sempre soubemos. Pensar que no amor não importa o passado, importa apenas o presente e os presentes - eu e tu e quem nos quer bem.
Há dias em que não temos forças nem para nos erguermos e gritarmos "pára, por favor pára!", e fazermos a dor desaparecer. Não temos forças para dizermos aos outros para pararem de argumentar, para deixarem de nos tentar destruir - nós próprios já o fizemos, sozinhos.
Dias em que temos medo e sentimo-nos humilhados por isso. Estamos fracos e frustrados e o desespero cega-nos ao ponto de apenas vermos a única coisa que atingimos em tantos anos de vida: o falhanço. Fracassámos.
Temos dias, nas nossas vidas, em que queremos que os outros sofram tanto quanto nós. As suas lágrimas sabem-nos bem e não sabemos porquê, não é? O sofrimento alheio faz-nos bem quando não conseguimos suportar o nosso. É como se nos aliviasse um pouco o peso sobre os ombros, sobre o coração esmagado e quase irremediavelmente reduzido a veias e artérias comprimidas, sem função.
Há dias em que respirar nos cansa. Em que vemos que chorar não é solução - embora quase sempre sintamos necessidade de o fazer. Talvez seja por isso, por não ser remédio para a demência da mente (que normalmente seria motivo do meu orgulho por ser diferente), que digo que estou mal com um sorriso na cara, a quem me conhece - não vale a pena ter pena. Não vale a pena sufocar mais com palavras falsas, ou com lágrimas que de nada servem. Tenho dias em que enfrento os obstáculos com um sorriso.
Há dias em que pensamos que é preferível desistir. Por vezes até sabemos que seria mesmo o melhor para nós. Até eu sei disso, quando vivo esses momentos, mas não o consigo fazer. Não sou uma desistente. Luto sempre pelo que quero, por vezes demais. Páro apenas quando vejo a luz, e a vida está por um fio.
Há dias em que somos mais humanamente influenciáveis do que costumamos ser. Uma traição, por exemplo, às vezes custa apenas porque é suposto custar. Ouvimos dizer que dói muito, por isso, quando acontece, pressupomos que está mesmo a doer. Pressupomos que nos sentimos destruidos, apenas porque sempre vimos todos encarar essas situações assim.
Há dias em que queremos apenas dizer adeus a todos os que amamos, e desaparecer por uns tempos. Queremos trancar-nos no fundo de um armário, por detrás das roupas há muito esquecidas, como uma criança que brinca às escondidas e espera não ser descoberta.
Dias em que nos sentamos num canto do sofá, à lareira, com o pijama amarrotado e impropriamente colorido para a ocasião, e nem o fogo nos consola. Parece consumir-nos por inteiro.
Temos dias em que passamos a achar que estamos destinados a sofrer, a ter o coração estilhaçado. Pior - há dias em que deixamos de acreditar no destino.
Há dias em que, momentaneamente, deixamos de acreditar naquilo que quisemos e cremos uma vida inteira.
Mas, surpreendentemente, quando isso acontece, o cavalo branco relincha lá fora, mais cedo ou mais tarde, e relembra-nos o conto de fadas.
Relembra-nos a história que vivemos, pela qual damos tudo de nós, ou a que acreditamos um dia vir a ter.
Aí, olhamos em volta e constatamos que afinal é fácil continuar a lutar: é um novo dia.
E, se é um novo dia, há um novo começo.

3 comentários:

  1. Fico contente por teres partilhado o teu exemplo e ver que com força de vontade foi possível :)
    Quanto ao comentário de facto não sei o que aconteceu, eu comentei mas não o eliminei. Não sei o que se passou...

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  2. Olá

    Há dias, e dias assim... noutro dia o Sol volta a brilhar, bela partilha.

    Beijos

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